TCC de enfermeira da serra gaúcha aborda sequelas deixadas pela Covid

SERGS valoriza o conhecimento científico produzido pela categoria – conheça os resultados da pesquisa realizada pela colega Camila Barrios Anjos da Mota

A enfermeira gaúcha Camila Barrios Anjos da Mota contraiu Covid em setembro de 2020 e transformou sua experiência em pesquisa científica.

Graduada pelo Centro Universitário CNEC, de Bento Gonçalves, e realizando sua pós-graduação em UTI Geral e Gestão da Assistência ao paciente crítico, Camila pesquisou sobre a persistência dos sintomas e as sequelas deixadas pelo Covid. O trabalho é intitulado Long Haulers e foi desenvolvido ao longo do ano de 2021.

A enfermeira teve comprometimento de 50% dos pulmões por conta da Covid. Na época, ficou internada por 5 dias e seguiu com sequelas, descobrindo mais tarde um nódulo no lobo direito inferior como sequela da grave pneumonia ocasionada pela Covid-19.

A enfermeira também foi descobrindo aos poucos outras sequelas como a perda de sensibilidade em diversos locais do corpo, astenia, cefaleia persistente e falhas de memória. Sequelas psicológicas também se manifestaram e precisou de auxílio psiquiátrico com tratamento medicamentoso, com crises de ansiedade, crises de pânico, síndrome do estresse pós-traumático em decorrência da dispneia e depressão.

“Em minhas pesquisas sobre as sequelas percebi o pouco que ainda se falava dos sobreviventes da Covid-19 e as causas futuras que essa doença poderia ocasionar, além do despreparo dos sistemas de saúde quanto as consequências da doença e a quantidade de novos pacientes que procurariam o serviço de saúde em busca de tratamentos”, revela a enfermeira Camila.

A pesquisa de conclusão de curso da enfermeira resultou em mais de 5 mil estudos encontrados dos anos de 2020 e 2021 e 55 selecionados para a escrita, após a leitura de todos os estudos selecionados emergiram categorias e subcategorias sobre as sequelas descritas na literatura.

O estudo contribuiu para a criação do projeto de um ambulatório pós-covid na cidade de Bento Gonçalves, aprovado pelo Conselho Municipal de Saúde. A Prefeitura instalou esse ambulatório, que hoje atende diversos pacientes com encaminhamento dos serviços de saúde da cidade e conta com equipe multiprofissional como Enfermeira, Clínico geral, Psicóloga, Nutricionista, Otorrinolaringologista e Fisioterapia.

“Apesar de já entender o real significado da Enfermagem e a importância que essa categoria tem para o atendimento e assistência ao paciente, com a pesquisa percebi a importância do conhecimento científico”, avalia Camila. Segundo a profissional, a enfermagem atua diretamente nos cuidados dos pacientes sejam eles covid-19 ou não, é a enfermagem que está lado a lado com o paciente e seus familiares em seus piores momentos. “É na enfermagem que o paciente muitas vezes irá encontrar a resposta do que está acontecendo e do que poderá acontecer, força para continuar os tratamentos e é da enfermagem que vem toda a humanização individualizada para cada paciente frente a situação em que ele se encontra”, analisa Camila.

A enfermeira acredita que seu estudo contribui diretamente para a enfermagem devido ao levantamento de dados científicos sobre a realidade dos pacientes pós Covid-19 e em como agir frente ao surgimento de diversos sobreviventes nos serviços de saúde, pois muito além do trabalho na fase aguda da doença, a fase pós-aguda irá permanecer por muito tempo ainda e os profissionais precisarão estar a par de todo o conhecimento disponível, bem como os serviços de saúde.

Se quiser acessar o estudo na íntegra, acesse aqui

TCC VERSÃO FINAL impressão

 

Veja algumas categorias do estudo Long Haulers:

 

Sintomatologia pós-agudo

Principais sintomas persistentes encontrados foram a dor, astenia (fraqueza), dispneia, perda de olfato e paladar, dores articulares, “névoa do cérebro”, queixas neurológicas, distúrbios do sono, limitação musculoesquelética, tosse crônica indiferente de casos graves ou leves, porém casos graves atenuam as sequelas devido ao acometimento dos sistemas e a internação e desuso da função musculoesquelética principalmente pacientes em UTI.

Referente a casos leves um estudo de Orientação de Saúde Pública da Inglaterra implica que 01 em cada 10 casos leves que não foram hospitalizados tiveram sintomas que duraram 04 semanas. Os casos são divididos em

Leves: sem agravamento dos sintomas e sistemas na fase aguda da doença ou até mesmo assintomáticos;

Moderados: utilização de aporte de O2 e sintomas limitantes das atividades de vida diária;

Graves: pacientes internados, UTI, utilização de ventilação mecânica, entre outros.

Ou seja, quanto mais grave o quadro do paciente maiores serão as dificuldades enfrentadas após a fase-aguda de Covid-19 e por consequências maiores sequelas a serem apresentadas.

Complicações Neuropsiquiátricas

Sequelas Neurológicas como: cefaleia, anosmia, ageusia, tontura e consciência prejudicada, neuroinflamação, alterações no estado mental (principalmente em idosos), maior incidência de acidente vascular cerebral (AVC), encefalopatia, Síndrome de Guillian-Barré, doença cerebrovascular aguda (mais propensa em pacientes hipertensos), neurodegeneração e declínio cognitivo.

Sequelas Psicológicas: doenças psiquiátricas recém diagnosticas como ansiedade, depressão, insônia, demência, transtorno do estresse pós-traumático, transtorno obsessivocompulsivo, graus de distúrbios psicológicos, como raiva, medo e solidão, além da falta de cooperação e adesão ao tratamento devido ao medo da doença, ideação suicida, desordem de pânico, entre outros.

Sequelas Sistema Nervoso: Quanto as sequelas envolvendo o sistema nervoso ainda não se sabe se são reversíveis ou se continuarão por toda vida, sendo mais comum na forma mais severa da doença e em pacientes com comorbidades.

Sequelas Neuromusculoesqueléticas: Dentre as disfunções no sistema musculoesquelético está perda da função muscular (responsável pela fraqueza muscular), mialgia, neuropatia e déficit de equilíbrio, rigidez articular, disfagia, quedas frequentes e até quadriparesia. Um dos mecanismos de redução da função musculoesquelética e do trofismo é a ação direta das citocinas inflamatórias no tecido muscular. Assim, a causa da perda de massa muscular provavelmente é multifatorial, envolvendo inflamação, imobilização, nutrição insuficiente e administração de corticosteroides.

Trato Gastrointestinal / Funções Digestivas: Principalmente relacionada a Covid-19 com pacientes que necessitaram de intubação orotraqueal e apresentaram graus de comprometimento na deglutição posterior à extubação, ocasionado a disfagia. Sintomas persistentes como náusea, anorexia, vômito e diarreia podem apresentar-se tanto na fase aguda como na pós-aguda de Covid-19.

Complicações Cardiorespiratórias

Sequelas Cardíacas: a Covid-19 apresenta complicações multissistêmicas, associada à falência multiorgânica, ativação de múltiplos sistemas neuroendócrinos e mediadores inflamatórios, que no seu conjunto podem comprometer a função cardíaca ocasionando em lesão miocárdica aguda, miocardite, insuficiência cardíaca (IC), choque cardiogênico, arritmias cardíacas e tromboembolismo venoso.

Sequelas Pulmonares: fibrose pulmonar, desempenho no esforço físico e saturação reduzidas, bronquiectasias de tração, dano alveolar, opacidade em vidro fosco, tosse com expectoração e dispneia. Devido as lesões pulmonares, apresentam as funções respiratórias enfraquecidas e, consequentemente, a capacidade de trabalho e a tolerância ao exercício também serão prejudicados, afetando seriamente a qualidade de vida.

Complicações Vasculares

Coagulopatia: Uma das características da infecção por SARS-CoV2 que é a inflamação sistêmica grave, capaz de produzir efeitos pró-coagulantes ou disfunção autoimune, podendo ambos os mecanismos condicionar a lesão miocárdica aguda. Coagulação intravascular disseminada, microtromboses, vasculite, lesão endotelial e o provável estado de hipercoagulabilidade arterial e venoso.

Tromboembolismo: Fatores como o fluxo sanguíneo alterado, hipercoagulabilidade e danos vasculares são fatores do tromboembolismo. A hipoxemia silenciosa em pacientes pós-Covid-19, com percepção de evento tromboembólico na alta hospitalar já são relatados. Em pacientes com quadros graves da Covid-19 pode ocorrer trombose venosa profunda e embolia pulmonar, bem como isquemia aguda do membro, trombose microvascular pulmonar e AVC.

Sequelas Renais: Em 3.235 pacientes que foram hospitalizados por Covid-19 na cidade de Nova York, a Insuficiência Renal Aguda ocorreu em 46% dos pacientes e 20% necessitaram de diálise. A IRA também é fator relacionado com maior mortalidade e 44% dos pacientes que receberam alta apresentaram doença renal aguda residual. Ainda, sugere-se que o número de pacientes que desenvolveram IRA durante o SARS-CoV2 é significativamente mais alto que de outros coronavírus.

 Manifestações cutâneas: O primeiro relatório de registro internacional de manifestações cutâneas relacionadas à Covid-19 através da International League of Dermatological Societies e a American Academy of Dermatology onde, 41 países compartilharam suas observações relacionadas a manifestações cutâneas em casos suspeitos e confirmados de Covid-19. No relatório, os pacientes confirmados para a doença apresentaram erupções urticariformes com 67 duração mediana de 4 dias e máximo de 28 dias, erupções papuloescamosas tiveram duração de em média 20 dias com máximo de 70 dias, pérnio (frieira) com duração de 12 a 133 dias esse, é atribuído à inflamação nos pequenos vasos, destacando o papel patogênico da inflamação crônica e vasculite. A alopecia (queda do cabelo) também foi relatada em estudos.

Complicações endócrinas/metabólicas

Sequelas Endócrinas: Estudos demonstram desenvolvimento de Tireoidite subaguda (SAT) 6 semanas após o início dos sintomas, além de hipotireoidismo.

Obesidade: Fator para desenvolvimento de complicações tanto na fase aguda como pós agudo de Covid-19. Pacientes que desenvolveram lesões pulmonares registraram IMC mediano significativamente maior do que os pacientes que tiveram resolução completa do quadro, presumindo que o aumento do IMC aumenta o risco de lesões pulmonares persistentes em 12,5%.  A combinação obesidade e Covid-19 resulta em maior risco de admissão em UTI e maior mortalidade.

Assistência continuada

Reabilitação: Melhorar a qualidade de vida para o paciente com alta hospitalar engloba uma série de medidas, como fisioterapia pós-admissão, cuidados nutricionais e apoio psicológico, reforçando o impacto sobre os cuidadores e aumento dos custos associados ao cuidado do indivíduo acometido por Covid-19. O início precoce de um programa estruturado de reabilitação contribui para a otimização da função cognitiva, respiratória, neuromuscular e osteoarticular, diminuindo o tempo de permanência em UTI e suas sequelas clínicas e funcionais, os protocolos de intervenção física e cognitiva melhoram a compreensão do paciente sobre o tratamento e os programas de apoio psicossocial, a mudança de comportamento e a adesão às diretrizes.

Equipe Multiprofissional: Devido a diversidade de sintomas na população afetada, recomenda-se um atendimento personalizado e abordagem holística para o gerenciamento dos sintomas e a necessidade da continuidade de programas de educação médica em Covid longo, especialmente para cuidados primários.

A pluridisciplinaridade, no âmbito das equipes de saúde, promove a atuação conjunta de diferentes profissionais objetivando de forma harmoniosa, a articulação das ações e dos saberes em divisão do processo de trabalho. O paciente na fase aguda e pós-aguda de Covid-19 passa por um maior número de atendimentos e consultas acarretando uma evolução mais rápida e significativa quando diferentes profissionais trabalham em conjunto. Profissionais como médicos Pneumologistas e Radiologistas, Fisioterapeutas, Enfermeiros, Psicólogos e Fonoaudiólogos constituem uma rede de funções inestimáveis para o cuidado, tratamento e reabilitação de pacientes Covid-19.

Sistema de Saúde: Sugere-se que os sistemas de saúde devam se readequar, com estratégias a fim de proporcionar recuperação físico-funcional e reintegração social desses dos sobreviventes da Covid-19, sendo importante desenvolver estratégias conjuntas de enfrentamento, estabelecendo linhas de cuidado na rede local e intermunicipal de saúde, trabalho interprofissional, parcerias intersetoriais, melhora da comunicação entre todos os níveis da atenção, fortalecimento do controle social, implementação de protocolos clínicos e de manejo dos pacientes Covid-19.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

1 × 1 =