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SERGS promove debate histórico sobre violência em tempos de pandemia

 

Um debate necessário e que atinge toda a sociedade. O SERGS promoveu nesta quarta (17), em seu perfil no Facebook, mais uma edição da live SERGS Debate, tendo como tema a violência em suas mais diferentes frentes. As convidadas foram a delegada titular da Delegacia da Mulher em Porto Alegre, Tatiana Bastos, a advogada e  especialista em direitos humanos Ariane Leitão, a enfermeira e professora universitária Virgínia Leissmann Moretto, e a doutora em Educação integrante da Rede Abrasco e professora universitária, Vanderleia Pulga. A mediação do debate foi da presidenta do SERGS, Cláudia Franco.

O debate iniciou com a apresentação dos números de feminicídios no RS, durante o período de pandemia, pela delegada Tatiana Bastos. Apesar do aumento de 66% nos casos desde o início do isolamento social, maio registrou um decréscimo em relação ao mesmo período no ano anterior. Segundo a delegada, a maior divulgação de canais de denúncia, a campanha da máscara roxa e a possibilidade de registros de ocorrência online, desde o dia 20 de março, têm contribuído para dar maior celeridade no atendimento à violência contra as mulheres, prevenindo, inclusive, alguns desfechos mais graves. “O número de prisões aumentou neste período de pandemia. Também conseguimos implantar em maio a possibilidade de sinalizar medida protetiva de urgência de forma online”, comentou Tatiana.

A advogada Ariane Leitão - que coordena a Força-Tarefa Interinstitucional de Combate aos Feminícidios – reforçou que as mulheres são vítimas de várias formas de violência no Brasil. E lembrou que muitas mulheres estão mais vulneráveis neste momento por estarem confinadas com seus potenciais agressores. Também comentou que houve cortes de verbas para garantir o combate da violência contra a mulher em todos os níveis e lamentou o projeto de morte em curso no país pelo atual governo federal.

“Não é fácil ser mulher neste país. Nunca foi e hoje está pior. Até o acesso ao auxílio emergencial é dificultado para as mulheres chefes de família”, observou. Ariane disponibilizou os dados levantados até o momento pela Força-Tarefa de Combate aos Feminícios para divulgação pelo SERGS. Confira aqui o relatório inicial.

A enfermeira, professora universitária e presidenta da Abenfo-RS, Virgínia Leismann Moretto, trouxe para o debate um tipo específico de violência cometida contra mulheres – a violência obstétrica. Destacou que o Rio Grande do Sul não possui uma lei contra a violência obstétrica, que garanta às gestantes e puérperas o direito de ter um plano de parto e uma gestação assistida, com humanização e a partir de critérios científicos. “Cada vez que se começa a falar deste tema há muita reação das entidades médicas e legisladores ligados a elas, pois é um assunto que incomoda”, disse Virgínia, trazendo casos de violência obstétrica, ocorridos recentemente no Rio Grande do Sul, alguns inclusive, já judicializados. A professora recentemente orientou o estudo da acadêmica de Enfermagem Juliana de Almeida Vargas sobre a violência contra a mulher no período de pandemia, que trouxe dados alarmantes. O estudo também será disponibilizado ao SERGS para divulgação.

Por fim, a pesquisadora Vanderleia trouxe a importância do grito lilás das mulheres por libertação e enfrentamento das situações de violência, reiterando que as práticas da violência transcendem o tempo e as culturas e se tornam ainda mais cruéis neste período de pandemia. “Por trás da violência, sempre há um machismo desumanizante”, sentenciou.

Como especialista em educação popular e saúde, Vanderleia analisou o adoecimento das mulheres em sofrimento e a importância de uma escuta sensível de toda a rede que atua no apoio destas mulheres. Ao final, a convidada proferiu um poema de Zuleica Alambert, reproduzido abaixo.
“Sempre que penso nas mulheres, me vem a imagem de um rio enorme e caudaloso que temos que atravessar. Umas apenas molham os pés e desistem, outras nadam até a metade e voltam, temendo que lhe faltem as forças. Mas há aquelas que resolvem alcançar a outra margem custe o que custar. Da travessia, vão largando pedaços de carne, pedaços delas mesmas. E pode parecer aos outros que do lado de lá vai chegar um trapo humano, uma mulher estraçalhada. Mas o que ficou pelo caminho é tão somente a pele velha. Na outra margem chega uma nova mulher...”

Com grande participação de enfermeiras e enfermeiros, o SERGS Debate desta semana foi uma aula online de empatia, solidariedade, resiliência e esperança. “Foi um momento histórico, que debateu um tema que está presente na vida de todos nós, todos os dias”, resumiu a presidenta Cláudia Franco.

Na próxima semana, o SERGS Debate será sobre Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) em tempos de Covid-19, com mediação da diretora do SERGS Inara Ruas e participação da assessoria jurídica do sindicato e convidados.

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