Excesso de trabalho como vetor para desencadeamento de doenças psiquiátricas

Em 2021, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT)[1] publicaram um estudo inédito realizado ao longo de 16 anos, que estima que em 2016, cerca de 745 mil pessoas morreram vítimas de algum tipo de acidente vascular cerebral ou doença cardíaca, relacionados a longas jornadas de trabalho cumpridas ao longo da vida profissional.

É fato científico incontestável que essas moléstias estão ligadas a histórico familiar, são “facilitadas” quando a pessoa apresenta hipertensão, obesidade, estilo de vida pouco saudável, como sedentarismo ou alimentação inadequada, mas o excesso de trabalho pode ser fator decisivo para surgimento de tais problemas, muitas vezes fatais.

Para além da sobrecarga de jornada, atividades que envolvam elevada responsabilidade e tensão, ritmo de trabalho penoso, jornadas muito intensas e extensas, tão comum em profissionais da saúde, são também condições propícias para desencadeamento de casos de stress, depressão, síndrome de Burnout[2], problemas de ordem neurológica entre outros diagnósticos semelhantes e estes, inclusive, também podem levar a problemas cardiovasculares no futuro.

Diferentemente do que ocorre em outros países, há pouca informação de fontes oficiais sobre estatísticas ou estudos epidemiológicos sobre os riscos dessas doenças crônicas e sua relação com determinadas atividades profissionais, o que é bastante preocupante, especialmente num momento de pandemia mundial que se prolonga há bem mais de um ano, onde não só há contaminações massivas de toda a população pela COVID-19, como explodiram os casos – especialmente em profissionais de saúde – de doenças psiquiátricas, relacionadas a ritmo intenso e penoso de trabalho imposto pelos hospitais para atendimento de pacientes.

Um inquérito realizado pela Fundação Oswaldo Cruz sobre a mortalidade­ de profissionais da saúde na pandemia confirma que além dos óbitos causados diretamente pelo Coronavírus entre abril de 2020 e março de 2021 terem alcançado o número de 1.292 casos, muitos se submeteram a jornadas extenuantes (mais de 60 horas semanais) para assegurar o atendimento de pacientes em picos de demanda ou para substituir colegas infectados, situações essas acrescidas da pressão por produtividade e do atendimento em grande escala, trazem consequências nefastas à sua saúde física e mental. [3]

As questões aqui trazidas são de vital importância para os trabalhadores da saúde, pois, é necessário que a sociedade se mobilize para cobrar dos gestores públicos maior fiscalização e regras para limitar abusos dos empregadores em relação às jornadas de trabalho exigidas dos seus empregados, aliada a condições adequadas de segurança, assim como políticas públicas que visem a uma atuação preventiva na promoção da saúde, como implantar em postos de atendimento equipes multidisciplinares, incluindo profissionais de educação física, nutricionistas, fisioterapeutas e até mesmo terapias alternativas.

O SERGS está alerta e vigilante e orienta a todos os profissionais a denunciarem as situações de abuso do poder diretivo, a fim de que o meio ambiente de trabalho seja um promotor de saúde e não de adoecimento.

[1] https://news.un.org/pt/story/2021/05/1750822

[2] Síndrome do esgotamento profissional

[3] https://www.cartacapital.com.br/saude/pesquisa-da-fiocruz-comprova-a-subnotificacao-das-mortes-de-profissionais-da-saude-na-pandemia/

Mari Rosa Agazzi 

Graduada em Direito pela UPF (1996), com pós-graduação pela Associação de Juízes do RS – AJURIS e Universidad de Castilla La Mancha, em Toledo – Espanha. Especialização em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho pelo Centro de Estudos do Trabalho – CETRA. Conselheira (2015/2017) e Segunda Secretária (2017/2019) da Associação Gaúcha de Advogados Trabalhistas – AGETRA. Atua na área de Direito do Trabalho e Acidentário (Saúde do Trabalhador).

Dayana Pessota Leite

Graduada em Direito pela PUCRS (1997). Atua na área do Direito Trabalhista.

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