A enfermagem que acolhe

O “radinho da alta” do HCPA é um exemplo de como os profissionais da enfermagem podem fazer a diferença onde atuam

Nesta semana, o vídeo de um paciente Covid em ECMO, ouvindo Beatles e dançando os pés no leito de internação do Centro de Tratamento Intensivo do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, foi publicado na imprensa e teve grande repercussão nas redes sociais. Conversamos com a enfermeira Ísis Marques Severo, que atua na unidade, para conhecer melhor os bastidores dessa história.

A inserção do rádio no CTI Covid começou quando Ísis tomou a iniciativa de levar um pequeno radinho de casa, para proporcionar um pouco de alegria e conexão com o mundo exterior para os pacientes. “A presença de um radinho desmistifica a ideia do CTI como um lugar focado em tecnologias, equipamentos complexos. Representa um cuidado que vai além da técnica, que mexe com o coração, ameniza o sofrimento e que é transformador”, analisa.

Em pouco tempo, o radinho tornou-se um amuleto no ambiente do CTI. Foi apelidado de “radinho da alta” pois a maioria dos pacientes que o ouvia durante a internação, logo era transferido para outra unidade e depois para casa. A ideia de Ísis motivou a doação de outros rádios, que passaram a ajudar na recuperação de muitos pacientes.

De acordo com a enfermeira, o equipamento auxilia no tratamento e previne o delirium, que é um quadro confusional agudo, que pode ocorrer em longos períodos de internação como é o caso dos pacientes com covid-19. Ela afirma que os parentes também agradecem muito o cuidado humanizado oferecido ao familiar.

No caso do vídeo do paciente em ECMO há mais de 40 dias, a música dos Beatles foi colocada pelas enfermeiras Rani Simões de Resende e Nívea Costa Vargas, que estavam de plantão. “Procuramos escolher a trilha sonora de preferência do paciente. Os que conseguem se comunicar conosco questionamos diretamente e no caso dos pacientes sedados descobrimos com a família o gosto musical e incluímos essa informação na nossa passagem de plantão, fortalecendo a continuidade do cuidado”, explica Ísis.

A maioria dos pacientes gostam de músicas mais tranquilas, mas há os que preferem as mais dançantes ou a programação de notícias. Com esse mesmo paciente que dançou ouvindo Beatles, Ísis viveu alguns dias antes outro momento emocionante em sua trajetória como enfermeira. Quando esse paciente acordou da sedação, estava tocando no rádio uma música gauchesca. O paciente abriu os olhos, Isis sorriu para ele e fez de conta que estava dançando. Ele então levantou os braços, convidando a profissional para dançar. “Peguei nas suas mãos e embalamos juntos ao som da música. Ele não tinha levantado os braços desde que havia sido internado. Foi transformador, tanto para ele quanto para nós, da equipe”, narra, emocionada.

O exemplo de Ísis se repete todos os dias nas unidades de internação e serviços de saúde de todo o país. Profissionais que vão além do prescrito para o ofício, que humanizam o cuidado, levam conforto e carinho às pessoas.

Por isso, encerramos o Maio da Enfermagem com essa mensagem de esperança e valorização da profissão, lembrando que – muito além de aplausos – o verdadeiro reconhecimento da profissão só vai acontecer quando houver o pagamento de um Piso Salarial adequado e a jornada de 30h, recomendada como a ideal pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

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